Entretenimento: Flip começa com mesa sobre poesia e menções a Temer e crise econômica

Flip começa com mesa sobre poesia e menções a Temer e crise econômica



A 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) – ou “Flip das mulheres”, como vem sendo chamada, devido ao recorde de participação feminina convidadas – começou na noite desta quarta-feira (29) com menções ao presidente em exercício, Michel Temer, e a influência da crise econômica na estrutura da Flip 2016. No sarau que substituiu o tradicional show de abertura, jovens poetas fizeram protestos políticos e contra o racismo e a cultura do estupro. Com influências de rap, os participantes deram clima de "Flip-Hop" à apresentação.

O primeiro debate do evento teve o poeta Armando Freitas Filho, que conversou com o cineasta e diretor de fotografia Walter Carvalho, diretor de um documentário sobre o primeiro, "Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície". A mediação do encontro, intitulado "Em tecnicolor", foi do também poeta Eucanaã Ferraz.

Como vem sendo costume na Flip há alguns anos, as mesas refletem o momento político do país. O mediador questionou Armando "se poesia é 'a vida passada a limpo'", citando o título de um livro de Carlos Drummond de Andrade".

Freitas Filho respondeu: "Não. A poesia é o gênero, pelo menos a minha, eu a entendo como a que toca todas as coisas, inclusive as coisas monstruosas, as coisas horrorosas... Pode tocar no Temer, por exemplo", arrancando aplausos do público. Curiosamente, o presidente em exercício é autor de um livro de poemas.

Ao falar sobre o documentário a seu respeito dirigido pelo companheiro de debate, Freitas Filho foi novamente bem-humorado. "Ficamos apaixonados", brincou o poeta, que arrancou mais risos. "Ninguém nunca tinha me olhado tanto", falou o escritor, sobre os sete anos que durou a produção.

Perto do fim, a discussão também passou pela homenageada deste ano, Ana Cristina Cesar (1952-1983), um dos nomes mais cultuados da poesia marginal brasileira dos anos 1970.

Freitas Filho falou sobre sua amizade com Ana C, a quem conheceu em 1973, quando ela tinha 20 anos. Lembrou que brigavam muito. "Porque tudo era um problema para ser resolvido. Por exemplo: verso livre", afirmou. Ele se referiu a ela como uma "poeta estranha".

Também comentou o livro "A teus pés", lançado em 1982, única obra de Ana Cristina Cesar a sair por uma grande editora. Contou que entre o envio dos originais para a Brasiliense e a publicação se passaram seis meses: "A Ana puxava os cabelos - 'Não vai sair!'". E relata que o desfecho se deu com um outro personagem importante da literatura oitentista no país. "Acabou que surgiu uma pessoa muito querida dela, que fez com que o livro saísse, que é Caio Fernando Abreu. Foi ele que fez o livro sair."

VEJA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DA FLIP 2016

Crise econômica
No discurso de abertura da Flip, o curador Paulo Werneck fez menção ao orçamento mais enxuto que a festa tem neste ano. "Neste ano está sendo muito difícil, é quase um clichê, uma realidade que todo mundo está vivendo. Neste momento, eu gostaria de fazer uma homenagem aos meus colegas das editoras, do jornalismo, que estão enfrentando a crise... As editoras estão fechando, tivemos grandes perdas nos últimos anos, na últimos meses."

Ele completou: "A gente não pode esquecer que 'crise' e 'crítica' são palavras que têm origem comum na língua grega. Isso faz a gente pensar que a crítica, a crítica literária, a autocrítica e todo tipo de crítica é bem-vinda, deve ser recebida com cuidado e provocar reflexão".

Por fim, o curador citou a homenageada da edição atual, dizendo que a Flip celebra a continuidade da literatura, da poesia e "da obra da Ana Cristina Cesar, que pulsa mais viva do que nunca".

Sarau 'Flip-Hop'
Após o debate, o documentário "Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície" foi exibido na Tenda dos Autores. Em seguida, houve um sarau de poesia conduzido pela compositora, poeta e apresentadora, Roberta Estrela D'Alva. Foi o momento "Flip Hop" do evento.

Além da própria Roberta, que ligada ao movimento hip-hop e incentivadora do Slam Poetry (competição de poesia), além de apresentadora do programa "Manos e minas", da TV Cultura, os convidados declamaram versos e fizeram comentários de teor politizado.

Os mais aplaudidos foram Allan Jones (que brincou de "roubar" a inspiração de um poema-declaração-de-amor feito por Ferreira Gullar), Emerson Alcade (com versos bem-humorados e recitados performaticamente) e Mel Duarte (que recitou poema contra a cultura do estupro). Passaram ainda pelo palco Daniel Minchoni (que gritou bastante no microfone; teve gente no público que parecia bastante assustada), Italo Moriconi, Sinhá e Chacal, nome conhecido da poesia marginal.

Duas estrangeiras também foram convidadas: a peruana Gabriela Wiener e britânica Kate Tempest, que declamou (ou interpretou) em inglês e teve ótima recepção. Ao fim, três integrantes do grupo Esquina do Rap (nome autoexplicativo), um deles com violão, encerraram as atividades, ratificando a proposta hip-hop.

O sarau foi das mudanças da Flip 2016 com relação a edições anteriores, uma vez que o primeiro dia de Flip costumava ser encerrado com um show (em outros anos, já se apresentaram nomes consagrados, como Gilberto Gil e Gal Gosta). Ao anunciar a mudança, Mauro Munhoz, diretor-presidente da Associação Casa Azul, responsável pelo Flip, falou em "fazer mais com menos".

Mais da programação
Outro destaque da programação da Flip 2016 é o astro e candidato a muso (se é que o termo ainda tem algum cabimento) o norueguês Karl Ove Knausgård, atual queridinho da literatura internacional e autor da celebrada e polêmica série de livros "Minha luta" (sim, o nome é uma desconfortável alusão às memórias de Adolf Hitler, mas a obra não endossa ideias nazistas).

Também estão escalados o pop e best-seller escocês Irvine Welsh, autor de "Trainspotting", adaptado para o cinema com sucesso em 1996; e os jornalistas Caco Barcellos e Misha Glenny, que vão fazer um aguardado debate sobre narcotráfico.

Veja, abaixo, a programação da Flip 2016

Quarta-feira, 29 de junho
Sessão de abertura: "Em Tecnicolor", às 19h
Com Armando Freitas Filho e Walter Carvalho

Sessão do documentário "Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície", de Walter Carvalho, às 19h45

Sarau, às 21h45
Autores selecionados entre todas as programações da Flip

Quinta-feira, 30 de junho
Mesa 1 – "A teus pés", às 10h
Com Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia

Mesa 2 – "Cidades refletidas", às 12h
Com Francesco Areri e Lúcia Leitão

Mesa 3 – "Os olhos da rua", às 15h
Com Caco Barcellos e Misha Glenny

Mesa 4 – "Histórias naturais", às 17h15
Com Álvaro Enrique e Marcílio França Castro

Mesa 5 – Matéria cinzenta, às 19h30
Com Henry Marsh e Suzana Herculano-Houzel

Mesa 6 – "Na pior em Nova York e Edimburgo", às 21h30
Com Bill Clegg e Irvine Welsh

Sexta-feira, 1º de julho
Mesa 7 – "Breviário do Brasil", às 10h
Com Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

Mesa 8 – "A história da minha morte", às 12h
Com J.P. Cuenca e Valeria Luiselli

Mesa 9 – "O show do eu", às 15h
Com Cristian Dunker e Paula Sibilia

Mesa 10 – Encontro com Karl Ove Knausgård, às 17h15

Mesa 11 – "Moxórdia de temáticas", às 19h30
Com Ricardo Araújo Pereira e Tati Bernardi

Mesa 12 – "Sexografias", às 21h30
Com Gabriela Wiener e Juliana Frank

Sábado, 2 de julho
Mesa 13 – Encontro com Leonardo Fróes, às 10h

Mesa 14 – "De Clarice a Ana C", às 12h
Com Benjamin Moser e Heloisa Buarque de Hollanda

Mesa 15 – Encontro da arte com a ciência, às 15h
Com Arthur Japin e Guto Lacaz

Mesa 16 – Encontro com Svetlana Aleksiévitch, às 17h15

Mesa 17 – "O falcão e a fênix", às 19h30
Com Helen Macdonald e Maria Esther Maciel

Mesa 18 – "O palco é a página", às 21h30
Com Kate Tempest e Ramon Nunes Mello

Domingo, 3 de julho
Mesa 19 – "Síria mon amour", às 10h
Com Abud Said e Patrícia Campos Mello

Mesa 20 – Mesa 21 – "Sessão de encerramento: Luvas de pelica", às 14h
Com Sérgio Alcides e Vilma Arêas

Mesa 21 – Livro de cabeceira, às 16h
Autores convidados leem trechos de seus livros favoritos

Ingressos
A partir desta quarta-feira (29) de junho, é possível comprar apenas na bilheteria da Flip, em Paraty, que fica na Tenda dos Autores e vai funcionar de quarta a sábado das 9h às 22h e no domingo das 9h às 15h.

Fonte: G1
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
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